A hidrossalpinge pode passar despercebida e afetar a fertilidade feminina. A investigação diagnóstica é importante.
O sistema reprodutor da mulher é formado por um conjunto de órgãos que atuam de maneira integrada para permitir a ovulação, a fecundação do óvulo, a implantação do embrião e o desenvolvimento da gestação. Alterações nos órgãos reprodutores, incluindo a hidrossalpinge, podem causar infertilidade feminina, mesmo quando não provocam sintomas evidentes no dia a dia.
Entre as estruturas importantes para a fertilidade natural, estão as tubas uterinas, também conhecidas como trompas. É nelas que ocorre a hidrossalpinge, condição que pode ser diagnosticada durante a investigação do casal infértil.
Confira as informações reunidas neste post para compreender o que é hidrossalpinge, quais são os sintomas e como ela interfere na possibilidade de gravidez!
Quais são as funções das tubas uterinas?

As tubas uterinas são estruturas tubulares, ligadas às laterais da parte superior do útero e que se prolongam até os ovários. Elas participam das etapas iniciais da reprodução humana. Suas funções são:
- captar o óvulo quando ele é liberado pelo ovário (ovulação);
- permitir o encontro entre óvulo e espermatozoide, ou seja, é dentro da tuba uterina que acontece a fertilização;
- conduzir o embrião até a cavidade uterina, onde ele poderá se implantar para dar início à gravidez.
Para que todos esses processos ocorram adequadamente, as tubas uterinas precisam estar pérvias (permeáveis, desobstruídas), em boas condições anatômicas e funcionais. Diante de obstruções tubárias, a passagem dos gametas, a fecundação e o transporte do embrião para o útero são dificultados ou impedidos.
O que é hidrossalpinge?
Hidrossalpinge é o acúmulo de líquido na tuba uterina, geralmente associado a uma obstrução distal. Esse líquido resulta em dilatação e obstrução ou distorção tubária, e geralmente é consequência de processos inflamatórios.
Cabe esclarecer que a hidrossalpinge não é uma doença isolada, mas uma sequela de outras condições ginecológicas que causaram inflamação e dano à estrutura tubária ao longo do tempo.
As principais causas de hidrossalpinge incluem:
- infecções pélvicas, sobretudo aquelas relacionadas a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), como clamídia e gonorreia. Processos infecciosos no aparelho genital feminino podem levar à doença inflamatória pélvica (DIP) e acometer vários órgãos simultaneamente;
- endometriose, uma das grandes causas de infertilidade feminina, que pode provocar inflamação crônica e formação de aderências nas estruturas pélvicas, incluindo as tubas uterinas.
Outros fatores menos frequentes incluem cirurgias pélvicas prévias, processos inflamatórios abdominais e complicações após procedimentos ginecológicos. Independentemente da causa, a consequência pode ser a perda da função normal da tuba afetada. Se as duas trompas forem danificadas (hidrossalpinge bilateral), as chances de gestação natural são praticamente nulas.
Hidrossalpinge tem sintomas?
Em boa parte dos casos, a hidrossalpinge é assintomática, isso explica por que muitas mulheres só recebem o diagnóstico durante a investigação da infertilidade. O acúmulo de líquido na tuba, por si só, nem sempre provoca dor ou outros sinais.
Quando os sintomas estão presentes, eles geralmente não são causados pela hidrossalpinge, em específico, e sim pelas doenças que levaram a essa sequela, principalmente quando as condições subjacentes permanecem ativas ou não foram tratadas corretamente.
Entre os sinais e sintomas possivelmente associados à hidrossalpinge, estão:
- dor pélvica crônica ou recorrente;
- sensação de peso ou desconforto no baixo ventre;
- dor durante ou após as relações sexuais;
- corrimento vaginal de coloração e odor anormais, quando há infecção associada;
- histórico de infecções ginecológicas.
Como diagnosticar a hidrossalpinge?
As mulheres (e até alguns profissionais de saúde) podem ter dificuldade para associar os sintomas a um problema nas tubas uterinas. Em diversos casos, o principal indício clínico da hidrossalpinge é a dificuldade para engravidar, ainda que esse também seja um problema relacionado a inúmeras outras causas.
Sendo assim, identificar os sintomas pode não ser suficiente para levantar a suspeita de hidrossalpinge. O mais recomendado é contar com o apoio de um médico especialista, que poderá conduzir uma investigação aprofundada.
No primeiro contato, o médico coletará informações sobre sintomatologia e histórico clínico, o que pode ser útil para direcionar a investigação. Mulheres com diagnóstico ou sintomas de endometriose, bem como aquelas com histórico de DIP, infecções pélvicas ou que passaram por cirurgia na pelve, têm probabilidade de apresentar hidrossalpinge.
Os exames de imagem que podem trazer a confirmação diagnóstica incluem:
- ultrassonografia transvaginal, que pode sugerir a presença de dilatação tubária;
- histerossalpingografia, exame de raio-X com aplicação de contraste, que avalia a permeabilidade das tubas uterinas;
- HyCoSy (histerossonossalpingografia com contraste), exame moderno com tecnologia de ultrassom, também muito útil para avaliar o útero e as tubas uterinas;
- videolaparoscopia, considerada padrão ouro em alguns casos, pois permite diagnóstico e tratamento simultâneos.
O que fazer ao identificar a hidrossalpinge?
Quando a hidrossalpinge é confirmada por exames, o médico que acompanha o caso pode apresentar para a paciente as opções de tratamento. A abordagem escolhida depende de fatores como extensão da lesão, presença de sintomas, idade da mulher e planos de gravidez.
Em linhas gerais, as alternativas abrangem:
- tratamento da condição subjacente;
- cirurgia para desobstrução da tuba afetada (não é bem-sucedida para todos os perfis de pacientes);
- cirurgia para retirada da tuba doente, seguida de fertilização in vitro (FIV).
A FIV é, há décadas, uma forte indicação para mulheres com obstrução tubária, pois permite que os óvulos sejam fertilizados em laboratório e os embriões transferidos para a cavidade uterina. Nesse cenário, as funções naturais das trompas não são utilizadas.
Ainda que a FIV seja uma tecnologia eficaz, ela pode ser precedida pela cirurgia para remoção das tubas afetadas (salpingectomia). Isso porque o líquido acumulado na trompa pode refluir para o interior do útero, criando um ambiente desfavorável para a implantação e o desenvolvimento do embrião.
A hidrossalpinge está associada à redução das taxas de sucesso da FIV quando não tratada previamente. Dessa forma, o manejo adequado da condição é necessário para melhorar os resultados do tratamento e aumentar as chances de uma gestação saudável.
Para aprofundar seu conhecimento, faça agora a leitura deste texto: tipos de infertilidade!
Dr. Mauro Bibancos | WhatsApp