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Com os avanços das técnicas diagnósticas e da medicina reprodutiva, é possível oferecer caminhos seguros e personalizados para acolher e ajudar mulheres que enfrentaram perdas gestacionais recorrentes, situação classificada como abortamento de repetição.

Considera-se abortamento de repetição ou espontâneo recorrente quando ocorrem pelo menos três perdas gestacionais consecutivas, com menos de 20 a 22 semanas de gravidez ou peso fetal inferior a 500 gramas.

Estima-se que, de todas as gestações diagnosticadas, aproximadamente 15% a 20% terminam em aborto espontâneo. O abortamento de repetição, em específico, deve afetar cerca de 3% dos casais em idade reprodutiva.

A investigação das causas das perdas gestacionais repetidas deve ser feita de forma aprofundada. Em grande parte dos casos, é possível identificar os fatores subjacentes e oferecer tratamento adequado.

Deve-se considerar também o acompanhamento multidisciplinar, especialmente o psicológico, pois o abortamento de repetição não tem somente implicações físicas. Ter uma gestação interrompida, sobretudo quando ela foi intensamente desejada, é um evento delicado e até traumático na vida da mulher ou do casal.

Quando as perdas gestacionais se repetem, o impacto tende a ser ainda mais profundo, afetando o equilíbrio emocional, a autoestima e as esperanças. A angústia, o medo de novas tentativas e frustrações e a insegurança quanto ao futuro podem tornar essa experiência ainda mais complexa e dolorosa. 

Nesse contexto, é importante compreender o que caracteriza o abortamento espontâneo recorrente, quais são suas principais causas, como a investigação diagnóstica deve ser realizada e quais são as possibilidades de tratamento, incluindo os recursos da reprodução humana assistida.

Causas do abortamento de repetição

Os fatores envolvidos na perda gestacional recorrente são diversos, podem envolver problemas genéticos, endócrinos, anatômicos, entre outros. A seguir, destacamos as possíveis causas:

Anormalidades cromossômicas 

Alterações genéticas representam uma das causas mais comuns de abortamento no primeiro trimestre. Esses fatores incluem aneuploidia (anormalidades no número de cromossomos), translocações ou outras anomalias cromossômicas estruturais.

Fatores endocrinológicos 

Há vários distúrbios hormonais que podem interferir na ovulação, na receptividade endometrial e na manutenção inicial da gestação, como insuficiência lútea (deficiência de progesterona), hipotireoidismo, hiperprolactinemia e síndrome dos ovários policísticos (SOP).

Anormalidades anatômicas no útero

Alterações uterinas, como mioma submucoso, pólipo endometrial, aderências intrauterinas (síndrome de Asherman) e malformações congênitas podem dificultar a implantação embrionária ou provocar abortamento, visto que limitam o espaço intracavitário.

Distúrbios da coagulação

As trombofilias hereditárias ou adquiridas também são importantes causas de abortamento de repetição, pois levam a um estado hipercoagulabilidade e interferem na vascularização adequada do endométrio uterino, dificultando o transporte de nutrientes e oxigênio para o embrião ou feto.

Fatores ambientais

Alguns casos de abortamento espontâneo recorrente também podem ser causados por exposição da mulher a substâncias nocivas, como tabaco e poluentes químicos liberados no ambiente.

Casos idiopáticos 

Embora as técnicas diagnósticas estejam cada vez mais refinadas e as pesquisas geralmente elucidem os fatores associados ao abortamento de repetição, ainda não se identifica uma causa clara em até 50% dos casos.

Investigação diagnóstica do abortamento de repetição

A investigação do abortamento espontâneo recorrente pode ser direcionada conforme o histórico da paciente e as suspeitas clínicas, mas também é importante que seja abrangente para rastrear todas as possibilidades. 

Veja quais exames podem ser solicitados:

Outra ferramenta relevante para a investigação do abortamento de repetição é o sequenciamento completo do exoma, especialmente quando as causas permanecem desconhecidas após exames convencionais.

O exoma representa o conjunto de todas as regiões codificadoras (éxons) dos genes. Com a tecnologia de sequenciamento de nova geração (NGS), é possível analisar simultaneamente todos os éxons de mais de 20.000 genes, permitindo a identificação de variantes genéticas que podem estar relacionadas a condições clínicas específicas.

Na avaliação do abortamento de repetição, o sequenciamento do exoma é particularmente útil nos casos idiopáticos, pois pode revelar mutações gênicas que não seriam identificadas por outros exames genéticos, como o cariótipo.

Formas de tratamento frente ao abortamento de repetição

O tratamento é feito com base na causa identificada (se houver). Veja as possibilidades:

Os casais com abortamento de repetição idiopático também precisam de suporte clínico e emocional. Além disso, podem realizar tratamentos avançados de reprodução assistida, como a FIV com PGT, para aumentar suas chances de gravidez saudável.

Outra conduta importante é o preparo endometrial com progestagênios, mesmo para mulheres que não apresentam deficiência hormonal. O suporte lúteo melhora o ambiente uterino, facilitando a implantação embrionária e a manutenção inicial da gestação.

A reprodução assistida tem papel relevante, tanto em casos de abortamento de repetição quanto de falhas repetidas de implantação embrionária. Utilizando os recursos apropriados, e com base em uma investigação aprofundada, é possível chegar a resultados positivos. 

O abortamento de repetição é uma condição complexa e que exige uma abordagem especializada, cuidadosa e empática. Mais do que buscar as causas isoladas do problema, é preciso realizar uma avaliação integral da mulher e do casal, considerando os fatores clínicos e emocionais.