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Fertilização in vitro (FIV)

Publicado em 21/08/2025

Dr. Mauro Bibancos

A fertilização in vitro (FIV) é uma técnica de reprodução assistida considerada de alta complexidade, pois requer uma série de procedimentos para que o óvulo seja fecundado fora do corpo materno, em laboratório. Ela é altamente eficaz para superar diversas condições de infertilidade.

A primeira gestação bem-sucedida decorrente de FIV ocorreu no ano de 1978, no Reino Unido. Desde então, a técnica passou por muitos avanços que contribuíram para o aumento de suas taxas de sucesso e tornaram o tratamento mais seguro. 

Atualmente — tanto em razão do aprimoramento técnico quando das atualizações nas normas éticas que regulamentam os serviços de reprodução humana assistida —, a FIV é indicada em diferentes contextos, desde infertilidade feminina e masculina até gravidez entre casais homoafetivos e prevenção de transmissão de doenças genéticas.

Indicações para o tratamento com FIV

A FIV pode ser realizada em várias situações. Veja:

  • obstrução ou ausência das tubas uterinas; 
  • endometriose;
  • fatores masculinos graves, como azoospermia (ausência de espermatozoides no ejaculado) ou alterações significativas na morfologia e motilidade dos espermatozoides;
  • idade materna avançada (acima de 35 anos);
  • mulheres com baixa reserva ovariana;
  • falhas anteriores em tratamentos de baixa complexidade, como a inseminação intrauterina
  • preservação da fertilidade antes de tratamentos oncológicos ou cirurgias nas gônadas (ovários e testículos);
  • reprodução de casais homoafetivos ou pessoas solteiras que desejam ter filhos sem parceiro(a);
  • risco de transmissão de doenças genéticas para os filhos;
  • histórico de abortamento de repetição;
  • alta taxa de fragmentação do DNA espermático;
  • casais que passaram por cirurgia definitiva de esterilização (vasectomia ou laqueadura);
  • pessoas que precisam de técnicas complementares específicas, como barriga solidária ou doação de óvulos;
  • infertilidade sem causa aparente (ISCA).

Etapas da FIV

O processo da FIV envolve várias etapas cuidadosamente controladas. Antes de iniciar qualquer tratamento, no entanto, é preciso fazer uma preparação que demanda principalmente uma investigação diagnóstica aprofundada.

A mulher passa por avaliação da reserva ovariana com dosagens hormonais e ultrassonografia pélvica. O útero e as tubas uterinas também são examinados com o ultrassom e a histerossalpingografia. Se necessário, outras técnicas são indicadas, como a histeroscopia. A pesquisa de trombofilias é mais uma indicação importante, especialmente em caso de abortamento espontâneo anterior.

Para o homem, o espermograma é o principal exame solicitado, mas outros podem fazer parte da avaliação, como os testes de função hormonal e os de fragmentação do DNA espermático. Para ambos os parceiros, recomenda-se ainda: rastreamento de doenças infecciosas e exame do cariótipo com banda G.

Com base em todos os resultados dos exames, é possível individualizar os protocolos da FIV e, se necessário, incluir no tratamento técnicas complementares. A seguir, veja quais são as principais etapas:

1. Estimulação ovariana 

A FIV começa com a estimulação dos ovários com medicações hormonais, com o objetivo de desenvolver múltiplos folículos ovarianos em um mesmo ciclo. A resposta ovariana é monitorada por ultrassonografias seriadas e dosagens hormonais. Essa etapa dura, em média, de 8 a 12 dias.

2. Coleta dos óvulos 

Após o devido crescimento folicular, uma medicação é administrada para desencadear a maturação final dos óvulos. Depois disso — e antes que a mulher ovule —, realiza-se a punção folicular, um procedimento simples e guiado por ultrassonografia, no qual os folículos ovarianos são aspirados para que os óvulos sejam coletados.

3. Preparo do sêmen 

Geralmente no mesmo dia da coleta dos óvulos, o sêmen é coletado e submetido a procedimentos laboratoriais de preparo seminal. Isso é importante para selecionar os espermatozoides que apresentam boa morfologia e motilidade progressiva.

4. Fertilização

A técnica mais utilizada para a fertilização dos óvulos em laboratório é a injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI), que envolve a micromanipulação dos gametas masculinos, um por um, os quais são injetados dentro dos óvulos.

5. Cultivo embrionário

Após a fertilização, os embriões são cultivados em incubadora com condições ideais de temperatura, umidade e pH, o que propicia o ambiente adequado para o início do desenvolvimento embrionário fora do corpo materno. A equipe de embriologia avalia os embriões diariamente e seleciona para a etapa de transferência aqueles que apresentam potencial de implantação.

6. Transferência embrionária

Os embriões podem ser transferidos após um período de cultivo de até 5 dias, quando se tornam blastocistos. A transferência é simples e indolor, realizada no próprio consultório. Os embriões são colocados dentro do útero com o auxílio de um cateter, enquanto o procedimento é guiado por ultrassom.

O número de embriões transferidos é definido de forma individualizada, considerando a idade da paciente e a qualidade dos embriões.

Quando a FIV termina com embriões excedentes de boa qualidade, eles podem ser congelados para tentativas futuras. Assim, se o casal quiser tentar novas transferências não precisará repetir todas as etapas do tratamento.

Técnicas complementares à FIV

O tratamento é personalizado e pode incluir técnicas para superar fatores específicos de infertilidade, como a ausência de gametas próprios ou o risco de formar embriões com alterações genéticas.

Doação de gametas

Mulheres com ausência de óvulos próprios ou que têm gametas de qualidade muito reduzida podem recorrer à ovodoação. A técnica também é necessária para casais homoafetivos masculinos.

A doação de sêmen é indicada para casais homoafetivos femininos e mulheres solteiras que buscam a maternidade independente. É, ainda, uma opção para casais com fatores graves de infertilidade masculina que não podem ser contornados com outras técnicas. 

Barriga solidária

A barriga solidária — antigamente, chamada de barriga de aluguel — é uma possibilidade para casais que não podem gestar, como nos casos de mulheres com ausência de útero ou doenças que contraindicam a gestação, bem como casais homoafetivos masculinos.

Teste genético pré-implantacional (PGT) 

O PGT permite a análise genética dos embriões antes da transferência para o útero, ajudando a identificar alterações cromossômicas ou mutações gênicas que poderiam resultar em falha de implantação, abortamento ou nascimento de uma criança com síndrome genética. 

Recuperação espermática 

As técnicas de recuperação espermática são realizadas pelo médico urologista e fazem parte do contexto da FIV, sendo indicadas para homens com azoospermia: PESA e MESA são usadas para recuperar espermatozoides dos epidídimos; TESE e Micro-TESE são úteis para coletar os gametas que ainda estão nos testículos.

Taxas de sucesso da FIV

As taxas de sucesso da FIV variam conforme vários fatores, sendo a idade da mulher e a qualidade dos embriões os mais importantes. As taxas de nascidos vivos são de:

  • 40% a 70% para mulheres com menos de 35 anos;
  • 30% entre 35 e 37 anos — essas taxas caem progressivamente;
  • 20%, aproximadamente, entre 38 e 40 anos;
  • 10% entre 41 e 43 anos;
  • 3% acima dos 42 anos.

Apesar do declínio nas taxas de sucesso da FIV de acordo com o avanço da idade materna, o aprimoramento das técnicas laboratoriais e a personalização do tratamento têm permitido melhores resultados, mesmo diante de situações complexas de infertilidade.



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