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Casais transgênero

Publicado em 21/08/2025

Dr. Mauro Bibancos

De acordo com a resolução atual do Conselho Federal de Medicina (CFM), todas as pessoas capazes e maiores de idade têm o direito de recorrer às técnicas de reprodução assistida. Isso significa que homens e mulheres transgênero, bem como pessoas não binárias, podem sim ter filhos biológicos se quiserem. 

Esse direito, no entanto, ainda enfrenta barreiras práticas e sociais. Muitas vezes, o preconceito, a falta de informação e o medo de julgamento afastam pessoas transgênero dos serviços da medicina reprodutiva.

A gravidez de transgêneros ainda é um tema pouco discutido na mídia. É por isso que é tão importante falar sobre essa possibilidade com clareza, acolhimento e respaldo científico, trazendo informações relevantes para quem deseja ter filhos.

Transição de gênero e fertilidade

A identidade de gênero costuma se manifestar ainda na infância e está associada ao desenvolvimento cerebral, influências genéticas e hormonais — não havendo relação direta com a orientação sexual.

Pessoas que não se reconhecem em seu sexo biológico podem encontrar alternativas na medicina para realizar a transição de gênero, o que é feito com terapia hormonal e cirurgia para redesignação sexual.

O tempo de preparação para a transição de gênero costuma ser longo, pois pode demorar anos para obter os efeitos significativos da hormonioterapia. Além disso, é importante que esse preparo seja cuidadoso e gradual devido aos aspectos psicossociais envolvidos.

O acompanhamento deve ser multidisciplinar, ético e individualizado, respeitando as decisões de cada pessoa. O cuidado exige equipe integrada por médico endocrinologista, cirurgião, psiquiatra e psicólogo, além do especialista em medicina reprodutiva quando a intenção é preservar a fertilidade.

Algumas pessoas optam pela transição parcial, feita somente com hormonioterapia, portanto sem cirurgia. Para quem escolhe fazer também a redesignação cirúrgica, as abordagens incluem:

  • para a pessoa AFAB (Assigned Female at Birth, ou designado feminino ao nascer) — metoidioplastia (alongamento do clitóris) e faloplastia (construção de pênis com enxerto de pele);
  • para a pessoa AMAB (Assigned Male at Birth, ou designado masculino ao nascer), a técnica padrão é a vaginoplastia por inversão peniana.

Os critérios para a cirurgia envolvem a avaliação do estado de saúde geral dos pacientes, o desejo confirmado de fazer a transição completa de gênero e o acompanhamento psicológico, tendo em vista os aspectos emocionais presentes.

As terapias hormonais e as cirurgias para retirada das gônadas (ovários ou testículos) causam impactos na fertilidade. Sendo assim, os pacientes devem ser informados sobre a possibilidade de preservar os gametas antes da transição. Desse modo, ainda será possível ter filhos biológicos futuramente.

Opções da reprodução assistida para pessoas transgênero

Pessoas transgênero podem ter filhos biológicos com o auxílio da reprodução assistida. A viabilidade dos tratamentos depende de vários fatores, como presença de órgãos reprodutores, produção de gametas, estado hormonal e histórico de procedimentos cirúrgicos (sobretudo a retirada das gônadas).

De forma geral, quanto mais cedo for feito o planejamento reprodutivo — especialmente no início da preparação para a transição —, maiores serão as chances de preservar a fertilidade. 

Veja quais são as alternativas!

Mulheres trans

Pessoas designadas homens ao nascer que se identificam como mulheres podem ter filhos biológicos se preservarem seu sêmen antes da hormonioterapia e da cirurgia para retirada dos testículos.

Nesse contexto, é possível coletar e congelar amostras de sêmen para uso futuro. Posteriormente, quando decidir ter um filho, a mulher trans poderá utilizar seu material genético em uma fertilização in vitro (FIV). Caso ela não tenha uma parceira com ovários e útero, será também necessário incluir no tratamento a ovodoação e a barriga solidária.

Homens trans

Pessoas designadas mulheres ao nascer que se identificam como homens podem engravidar, inclusive de forma espontânea, caso ainda possuam útero e ovários funcionando normalmente e não estejam sob uso contínuo de testosterona. 

Quando isso não é possível ou desejado, as opções incluem: 

Cuidados médicos e éticos

O cuidado com os pacientes transgênero na reprodução humana exige mais do que técnica. É necessário acolhimento, respeito e formação continuada dos profissionais de saúde. Os protocolos internacionais, como os da WPATH (World Professional Association for Transgender Health, ou Associação Profissional Mundial para Saúde Transgênero), reforçam a importância de um atendimento humanizado e centrado na pessoa.

Com orientação adequada, suporte emocional e preparo clínico, a medicina reprodutiva pode ajudar os casais com pessoas transgênero a formarem uma família com filhos biológicos, passando por tratamentos seguros, individualizados, com respeito e dignidade.

Casais formados por transgêneros podem recorrer à reprodução assistida da mesma forma que casais cisgênero (heteroafetivos ou homoafetivos) e pessoas solteiras que buscam a gravidez solo. O tratamento é sempre personalizado, levando em consideração as expectativas e desejos, a anatomia dos indivíduos e os recursos disponíveis.

Portanto, todas as pessoas, sem distinção, têm o direito de formar uma família. A reprodução assistida, quando aliada à ciência, à ética e ao respeito à diversidade, torna esse sonho uma realidade cada vez mais acessível. O importante é buscar informação de qualidade, conversar com especialistas e receber apoio multidisciplinar para planejar cada passo com cuidado.

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