A infertilidade pode ter diferentes causas e envolver tanto fatores femininos quanto masculinos. Entre as possíveis condições de infertilidade masculina, está a azoospermia, caracterizada pela ausência de células sexuais no ejaculado. No entanto, mesmo nesses casos, a medicina reprodutiva oferece alternativas eficazes, como os procedimentos de recuperação de espermatozoides antes da fertilização in vitro (FIV).
Para entender como esses procedimentos funcionam, é importante conhecer antes o funcionamento do sistema reprodutor masculino e o caminho natural da produção e do transporte dos espermatozoides.
O sistema reprodutor masculino é composto por órgãos internos e externos que trabalham juntos para a produção e a liberação dos espermatozoides. Dentro dos testículos, há estruturas chamadas túbulos seminíferos que são responsáveis por produzir continuamente os espermatozoides, processo esse estimulado pelos hormônios, principalmente a testosterona.
Depois de produzidos, os espermatozoides seguem para os epidídimos (ductos situados atrás dos testículos), onde atingem maturidade e adquirem motilidade. Em uma situação normal, durante a ejaculação, os gametas percorrem os canais deferentes, passam pelas vesículas seminais e pela próstata, onde se misturam aos fluídos que compõem o sêmen, e percorrem o canal uretral para serem liberados.
Qualquer falha nesse percurso — seja na produção, na maturação ou no transporte dos espermatozoides — pode comprometer a fertilidade masculina. Nas condições mais graves, pode ser necessário recorrer à recuperação espermática para obter os gametas e tentar engravidar com a FIV.
Quando a recuperação de espermatozoides é indicada?

A indicação é feita para homens que apresentam azoospermia, isto é, quando não há espermatozoides no sêmen ejaculado. A ausência dos gametas pode ser confirmada com dois espermogramas, realizados em datas distintas, com um intervalo de, pelo menos, duas semanas entre eles.
O espermograma é um exame feito em laboratórios especializados. O objetivo é analisar os aspectos do sêmen, incluindo concentração, vitalidade, morfologia e motilidade das células reprodutivas. Caso esse exame revele azoospermia, a investigação deve prosseguir com outras técnicas diagnósticas para descobrir quais são as causas da alteração.
A azoospermia pode ser de dois tipos:
- obstrutiva — nesse caso, os testículos produzem espermatozoides normalmente, mas existe algum bloqueio nos canais que os transportam até a uretra. Pode ser decorrente, por exemplo, de vasectomia, infecções genitais e ausência congênita dos vasos deferentes;
- não obstrutiva — aqui, o problema está na própria produção de espermatozoides, que pode ser baixa ou inexistente. Esse tipo de azoospermia pode estar associado a alterações genéticas, disfunções hormonais, varicocele, exposição a agentes tóxicos, quimioterapia e radioterapia, entre outras causas.
Quais são os procedimentos para recuperação de espermatozoides?
Existem quatro procedimentos principais para a recuperação de espermatozoides, cada um com suas indicações específicas, dependendo do tipo de azoospermia.
Entenda melhor!
PESA e MESA
As técnicas PESA (Aspiração percutânea de espermatozoides do epidídimo) e MESA (Aspiração microcirúrgica de espermatozoides do epidídimo) são indicadas para homens com azoospermia obstrutiva. O objetivo é recuperar os gametas que estão nos epidídimos.
São procedimentos minimamente invasivos, nos quais o médico introduz uma agulha fina no epidídimo e aspira os espermatozoides ali armazenados. A diferença entre elas é que a MESA envolve o uso de microscópio cirúrgico, o que permite visualizar melhor os túbulos do epidídimo e fazer a punção das células de forma mais precisa.
TESA
TESA (Aspiração de espermatozoides dos testículos) é um procedimento de recuperação espermática que pode ser utilizado em casos de azoospermia obstrutiva e não obstrutiva. É um método de punção testicular e aspiração de fragmentos que possam conter os gametas.
Embora também possa ser indicado para homens com azoospermia não obstrutiva, as taxas de recuperação de espermatozoides nesse caso são menores do que com os métodos TESE e Micro-TESE.
TESE e Micro-TESE
Nesses procedimentos para recuperação de espermatozoides, pequenas incisões são feitas nos testículos para coletar fragmentos de tecido que possam conter focos de espermatogênese ativa. As indicações são para os homens com azoospermia não obstrutiva.
A diferença entre TESE (Extração de espermatozoides testiculares) e Micro-TESE (Microdissecção testicular) é que, nessa última, o urologista utiliza um microscópio de alta ampliação para analisar os túbulos seminíferos e encontrar os focos de produção espermática.
O que acontece após a recuperação de espermatozoides?
Quando os gametas são recuperados em número suficiente, eles são analisados quanto à qualidade e passam por métodos de capacitação. Em seguida, são usados na FIV com injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI) ou congelados para uso futuro.
A ICSI é ideal nesses casos, uma vez que a quantidade de espermatozoides obtida costuma ser pequena. Com essa técnica, é possível manipular um único espermatozoide de cada vez e inseri-lo dentro de um óvulo.
Vale lembrar que a avaliação completa da fertilidade do casal é essencial, independentemente da suspeita médica ou do diagnóstico inicial. Sendo assim, antes de indicar qualquer procedimento, tanto o homem quanto a mulher precisam realizar exames.
Essa atenção abrangente é necessária para nortear o tratamento. Com base nos fatores de infertilidade identificados, a abordagem mais adequada para cada casal é escolhida, incluindo as técnicas complementares.
Diante da infertilidade masculina por azoospermia, que é considerada um fator grave, a abordagem principal é a FIV com ICSI após recuperação de espermatozoides. Contudo, também há limitações nessa prática.
Caso não seja possível obter um número suficiente de células viáveis com a recuperação de espermatozoides, o casal pode ainda considerar a doação de gametas. Assim, utilizando os óvulos da parceira e o sêmen de um doador, existem chances de confirmar uma gravidez.
Dr. Mauro Bibancos | WhatsApp


